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8.2.08

Deus e o capitalismo


Escreve-me um jovem físico de São Paulo. Chama-se Júlio, tem 26 anos e elogia as posições que venho tomando nesta coluna em favor do povo pobre do Brasil. Diz que, a princípio, ficou mesmo admirado por ver a Folha acolhê-las e publicá-las. Mas depois, refletindo melhor, chegou à conclusão de que, tendo eu uma visão religiosa do mundo e do homem, aquelas posições ficam todas invalidadas, porque a idéia de Deus é o principal sustentáculo do castelo de privilégios da elite econômica política, que dela se serve para manter o povo resignado diante de todas as desigualdades e injustiças.

Na carta, o jovem físico não colocou seu sobrenome, e é por isso que não o transcrevo aqui. Se, por acaso, estas linhas vierem a cair sob seus olhos, peço-lhe que me mande um bilhete com seu telefone: gostaria muito de conversar um pouco com ele, para agradecer pessoalmente os termos amistosos com os quais, na carta, até as discordâncias foram formuladas.

Mas aqui, logo de entrada, gostaria de dizer-lhe que o Deus de quem me considero filho não é capitalista e anti-socialista como declarou o economista Roberto Campos em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Não se deixe Júlio impressionar por nossos erros e pecados. Olhe somente o Cristo e ouça o que ele dizia. Leia os "Atos dos Apóstolos" e veja como os primitivos cristãos procuravam organizar a sociedade: "A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era comum entre eles (...). Não havia entre eles indigente algum; (...) e distribuía-se a cada um segundo a sua necessidade". Num ponto, porém, Júlio tem razão em sua crítica ao cristianismo: depois que o imperador Constantino romanizou temporalmente a Igreja, esta passou a dotar as desigualdades e injustiças do Império Romano. Mesmo assim, mesmo governada por mapas como Alexandre 6º, a Igreja continuou condenando a usura e a ganância. De modo que, como Max Weber demonstrou de modo irrespondível, foi o pensamento protestante que procurou legitimar a injustiça social e a desigualdade: segundo os ideólogos "brancos, anglo-saxões e protestantes", a riqueza era um sinal de predileção de Deus. E, juntando-se isso à "sobrevivência do mais apto" de Darwin e Spencer, o capitalismo seria, mesmo, preferido por Deus.

Entretanto – e graças sejam dadas a Ele por isso! – no século 20 os papas João 23 e Paulo 6º afastaram a Igreja de tal visão anticristã. De maneira que eu, católico, posso dizer a Júlio que Deus, segundo visto por João 23 e por outros que pensam como eu, é cristão, católico e socialista. O Deus que é capitalista (e que, portanto, pode ser colocado a serviço da injustiça e da desigualdade) é o do presidente Clinton, de Roberto Campos e do bispo Edir Macedo.


Ariano Suassuna

Folha de São Paulo – São Paulo – SP, 01/02/00

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